Mabe Bethônico

Aulas de Outro Mundo, por Théo-Mario Coppola

Aulas de Outro Mundo

Mabe Bethônico

Galeria Marília Razuk, São Paulo, Brasil

02/04/2022 – 21/05/2022


A exposição Aulas de Outro Mundo, de Mabe Bethônico, desafia o que poderia ser definido como uma crise contemporânea da representação e transmissão. Os projetos – ou “lições” – que ela reúne desenvolvem metodologias em potencial para contradizer o conhecimento estabelecido. Essas metodologias são concebidas como exercícios que podem ser compartilhados e mais bem elaborados coletivamente. O “outro mundo” de que fala o título está situado em um interstício entre um passado a ser examinado, um presente de resistência e um futuro a ser inventado.


A formalização estética dos projetos e da exposição é considerada por meio de uma reflexão sobre os fundamentos sociais, políticos, econômicos e ambientais da pedagogia. Ao reinterpretar várias formas de linguagem institucional que estão associadas ao ensino e à aprendizagem, Mabe Bethônico traz contranarrativas para o primeiro plano. Ela dá voz a histórias que as instituições dominantes excluíram do discurso histórico, científico e cultural.


A artista examina as estruturas de poder do conhecimento. Ela observa como padrões fixos são usados em disciplinas acadêmicas e histórias nacionais para estabelecer ou reforçar o conhecimento estabelecido. Também observa como a dimensão performativa do conhecimento foi culturalmente criada para se encaixar em contextos políticos específicos e manter a chamada coesão social.


Tanto de modo isolado quanto como um todo, os projetos revelam a violência que isso representa, e as ramificações que isso tem para a dominação de seres humanos e não humanos, bem como para a perpetuação da exploração de recursos.


No mundo todo, muitas comunidades são forçadas a abandonar parcial ou completamente suas práticas culturais para entrar em conformidade com as práticas hegemônicas. Com Escola-Congado, Mabe Bethônico investiga os processos conflitantes que estão em jogo na assimilação transcultural. As bandeiras em tecido – ou “lousas têxteis” – exploram o status do congado na sociedade brasileira e no seu funcionamento interno em uma relação com a linguagem. Uma prática ritual afro-brasileira sincrética que envolve música e dança, o congado está inextricavelmente ligado a como é feita sua transmissão. Ao visualizá-lo como uma “escola”, Mabe Bethônico destaca o valor do conhecimento praticado dentro de suas comunidades.


Educa-se nas Relações é uma série de impressões feitas a partir de suportes e transparências refotografadas. As ações humanas, os outros seres vivos e os elementos geológicos representados nos slides educativos originais foram cortados e recompostos em montagens e colagens que descontroem as categorias da taxonomia naturalista. A abordagem analítica de Mabe Bethônico a esses elementos educacionais produz um novo conjunto de representações, formando um ecossistema que espelha, simbólica e estruturalmente, a porosidade do mundo.


O vídeo Mountains Thrashing Out [Montanhas Tareiando] examina ainda outras possibilidades de reinterpretação do conhecimento. A artista recortou nuvens de fumaça de um livro de geologia e as reuniu para criar uma colagem que é exibida na sequência de abertura. O processo de selecionar essas nuvens e transformá-las e uma única imagem é então mostrada de trás para a frente, sugerindo de forma implausível que uma ação pode ser apagada pela reversão do tempo. O vídeo repercute as consequências nefastas do Capitaloceno e, por extensão, que, embora a consciência ambiental esteja aumentando, as ações do passado são, ainda assim, irreversíveis.


O interesse de Mabe Bethônico pela historiografia é revelado em História do Brasil e Revendo Legendas. Os dois grupos de obras em mixed-media examinam os ensinamentos da história colonial do Brasil e como essa história está inscrita na consciência moderna por meio da disseminação de representações idealizadas do país criado por aqueles que o colonizaram e lhe deram nome, sejam conquistadores, padres ou líderes políticos. Os trabalhos confrontam como crianças e adultos são constantemente expostos àquilo em que os opressores querem forçá-los a acreditar, e como os ataques aos povos e às terras indígenas foram – e continuam sendo – ocultados por narrativas distorcidas.


Betty Bloomsfield aborda a questão da densidade do conhecimento e de uma possível sobrecarga de informação. No vídeo, uma palestrante em forma de marionete conversa com uma plateia virtual pela câmera. Pesquisadora empenhada, a palestrante quer compartilhar seu conhecimento sobre a crise ambiental planetária. Mas ela não consegue se lembrar de como construiu seu raciocínio e gradualmente se perde em meio à quantidade e variedade de teorias e análises atuais. Por meio dessa personagem ficcional, a artista considera de forma perspicaz as demandas de manter-se a par das novas contribuições teóricas da pesquisa sobre o meio ambiente.


A exposição é uma oportunidade de reconsiderar a educação a partir de uma perspectiva crítica. O trabalho de Mabe Bethônico segue narrativas não reconhecidas e suas inflexões, revelando traços nas margens dos discursos dominantes. Sua obra também enfatiza as inter-relações entre linguagem e dominação na dinâmica e nas atividades humanas ao revelar o que foi tornado invisível pelas histórias oficiais. Isso demonstra como o conhecimento não é sobreposto ao mundo, e sim, um aspecto dialético dele. A prática da artista reside em um ponto de transição entre uma leitura crítica do nacionalismo, colonialismo, imperialismo, capitalismo e do naturalismo como sistemas de informação, e um futuro emancipatório em que forças verticais e horizontais se combinam.


Théo-Mario Coppola

Versão original em inglês

Tradução de Alyne Azuma